
As novas demissões na Meta previstas para 20 de maio têm uma justificativa direta: o orçamento de infraestrutura de IA subiu tanto que não cabe junto com a folha de pagamento atual. A admissão veio do próprio Mark Zuckerberg, em reunião interna com funcionários nesta quinta-feira (30), conforme detalhes obtidos pela Reuters.
São cerca de 8 mil pessoas desligadas, equivalente a 10% de uma força de trabalho de 78.865 funcionários registrada no fim de 2025. O CEO ainda deixou em aberto a possibilidade de uma segunda rodada de cortes no segundo semestre. Janelle Gale, chief people officer, e Susan Li, CFO, também não descartaram novos desligamentos.
A linguagem usada por Zuckerberg foi mais explícita do que em comunicações anteriores. Sem rodeios sobre eficiência ou produtividade, o executivo colocou os dois lados da equação em cima da mesa, em um trade-off que o setor de tecnologia evitava admitir publicamente.
“Basicamente temos dois grandes centros de custo na empresa: infraestrutura computacional e o lado das pessoas. Se estamos investindo mais em uma área para atender nossa comunidade, isso significa que temos menos capital para alocar na outra. Então precisamos diminuir o tamanho da empresa.”
Mark Zuckerberg, CEO da Meta
A frase consolida a leitura dos analistas que vinham observando o crescimento descompassado entre CAPEX e quadro de funcionários. O CEO explicitou que não se trata de um corte por dificuldade financeira, e sim por realocação ativa de recursos.

CAPEX de US$ 145 bilhões mira data centers e GPUs
A reunião com funcionários aconteceu no mesmo dia em que a Meta divulgou novo guidance para o ano. A previsão de CAPEX 2026 subiu para a faixa de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões (entre R$ 694 bilhões e R$ 805 bilhões na cotação de R$ 5,55 por dólar, sem impostos), acima da estimativa anterior de US$ 115 bilhões a US$ 135 bilhões. As ações caíram 9% no after-market após o anúncio.
O número impressiona quando colocado em perspectiva. Em 2025, o gasto total em CAPEX foi de US$ 72,2 bilhões (cerca de R$ 401 bilhões). A meta para 2026 quase dobra esse valor em um único ano. O ponto médio do guidance é o dobro exato do que foi gasto no ano anterior.
A destinação dos recursos não é difusa. Quase tudo vai para data centers, GPUs, silício customizado e infraestrutura de suporte aos modelos de IA Llama e ao Meta Superintelligence Labs, comandado pelo CAIO Alexandr Wang, fundador da Scale AI.
Dois projetos concentram parte expressiva do investimento. O Hyperion, na Louisiana, é um data center de 5 gigawatts orçado em US$ 10 bilhões (R$ 56 bilhões). O Prometheus, em Ohio, é um supercluster de 1 gigawatt com previsão de entrar em operação ainda este ano.
Resultados financeiros não justificam corte por necessidade
Os resultados do primeiro trimestre de 2026, divulgados na quarta-feira, mostraram receita de US$ 56,31 bilhões (R$ 313 bilhões), um crescimento de 33% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro líquido fechou em US$ 26,8 bilhões (R$ 149 bilhões). Apenas o CAPEX do trimestre somou US$ 19,84 bilhões (R$ 110 bilhões).
Os números desmontam a narrativa de corte por aperto financeiro. A Meta tem caixa, gera lucro e segue crescendo. A escolha por reduzir quadro vem de uma decisão estratégica de redirecionar capital, não de pressão de resultados.
| Indicador financeiro | Valor (US$) | Equivalente (R$) |
|---|---|---|
| Receita Q1 2026 | 56,31 bi | ~313 bi |
| Lucro líquido Q1 2026 | 26,80 bi | ~149 bi |
| CAPEX Q1 2026 | 19,84 bi | ~110 bi |
| CAPEX total 2025 | 72,20 bi | ~401 bi |
| CAPEX 2026 (mín.) | 125,00 bi | ~694 bi |
| CAPEX 2026 (máx.) | 145,00 bi | ~805 bi |
| Crescimento de receita YoY | +33% | — |
Conversões em BRL com cotação aproximada de R$ 5,55 por dólar. Valores não incluem impostos brasileiros.
“Não é a IA tomando vagas”, diz Zuckerberg
Um dos pontos mais cuidadosamente construídos da fala de Zuckerberg foi a separação entre infraestrutura de IA e produtividade gerada por IA. O CEO afirmou que a adoção de ferramentas de IA dentro da empresa não é o motor das demissões.
“Fazer com que todos internamente usem ferramentas de IA e trabalhem de forma mais eficiente não é o que está conduzindo as demissões. Vamos ver como tudo isso evolui.”
Mark Zuckerberg, CEO da Meta
A fala protege a Meta da acusação de “AI washing” — termo cunhado pelo CEO da OpenAI, Sam Altman, para descrever empresas que atribuem demissões à inteligência artificial quando o motivo real é outro. A diferença na Meta é que o motivo declarado é o custo da máquina, não a substituição do trabalhador pela máquina.
Ainda assim, o argumento esbarra em declarações públicas anteriores do próprio Zuckerberg. O CEO já havia afirmado que o output por engenheiro na empresa subiu 30% desde o início de 2025 com o uso de ferramentas de IA, e que “power users” registraram aumento de 80% em produtividade na comparação anual. Os ganhos existem. A leitura é que ainda não são suficientes para mover decisões de quadro.

Reorganização em “pods” focados em IA
A onda de maio chega com 6 mil vagas em aberto canceladas, totalizando uma redução efetiva de 14 mil posições. As demissões são estruturais, não relacionadas a desempenho individual, segundo memorando interno assinado pela chief people officer.
A reorganização cria três novas categorias de cargos dentro da Meta: AI builder, AI pod lead e AI org lead. Engenheiros de várias áreas estão sendo transferidos para a estrutura Applied AI. A linguagem interna fala em “mudança de patamar na produtividade de engenharia e na qualidade de produto”.
Os cortes atingem Reality Labs, divisão social do Facebook, recrutamento, vendas e operações globais. Notificações sob a lei WARN Act na Califórnia já confirmaram 124 dispensas em Burlingame e 74 posições em Sunnyvale, com efeito em 22 e 29 de maio respectivamente.
CAPEX vs. headcount: o trade-off explícito do Vale do Silício
A reunião com funcionários na Meta entrou para o pequeno conjunto de momentos em que um CEO de Big Tech admitiu a troca de pessoas por máquinas em termos de alocação direta de capital. O argumento que vinha sendo feito de forma implícita pelo setor passa a ter forma escrita.
Outras companhias seguem o mesmo padrão de redirecionamento. A Oracle eliminou até 30 mil empregos em março para sustentar US$ 156 bilhões em compromissos de IA. A Amazon cortou 16 mil vagas corporativas em janeiro. A Atlassian dispensou 1.600 pessoas e trocou o CTO por dois executivos focados em IA. Block eliminou 4 mil postos.
O setor já acumula mais de 95 mil demissões em 2026, distribuídas em 247 eventos de layoff, com média diária de 882 desligamentos, segundo ferramentas de rastreamento. A Meta sozinha já ultrapassou a marca de 25 mil postos eliminados desde 2022, considerando todas as ondas anteriores.
Sem visibilidade dos próximos três anos
Outro trecho marcante da fala de Zuckerberg foi a admissão de incerteza estratégica. O CEO disse explicitamente que não tem um plano detalhado para os próximos três anos de uma forma que destoa do tom firme habitual em comunicações desse tipo.
“Eu queria poder dizer que tenho um plano de bola de cristal para os próximos três anos sobre como tudo isso vai se desenrolar. Mas não tenho. Não acho que ninguém tenha.”
Mark Zuckerberg, CEO da Meta
A declaração ganha peso quando combinada com as posições de Susan Li e Janelle Gale. A CFO disse aos investidores que não sabe qual é o tamanho ideal de longo prazo para a força de trabalho da Meta dado o ritmo de avanço da IA. A chief people officer não descartou novas dispensas no segundo semestre.
A combinação coloca os 71 mil funcionários remanescentes diante de uma equação direta. A continuidade no emprego está atrelada ao item CAPEX, que a empresa vem revisando para cima a cada trimestre. Cada novo compromisso de infraestrutura sai do mesmo bolso que paga salários.
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Aposta de longo prazo passa pelo retorno do investimento em Silício
A queda de 9% das ações no after-market após o guidance sinaliza desconforto de parte dos investidores com o ritmo dos gastos. A pergunta de fundo do mercado é se a infraestrutura sendo construída vai gerar retorno proporcional ao capital humano sendo eliminado.
A Meta segue confortável em entregar lucros e expandir receita, mas o ciclo atual depende de uma aposta que ainda está sendo testada. Llama, Meta AI e os produtos de recomendação alimentados por IA precisam mostrar contribuição direta para o resultado, e não apenas absorver bilhões em GPU e data center sem retorno mensurável.
A defesa pública vai depender de como a base de anúncios e os novos produtos de agentes de IA convertem o investimento em receita incremental. Por enquanto, a empresa pede paciência aos acionistas e diz aos funcionários que a folha precisa diminuir para o caixa caber em outra prioridade.
Fonte(s): Reuters (via Yahoo Finance) e The Next Web
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